OS SAPATINHOS DE AUSCHWITZ

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“Só o trabalho liberta”! Lá estava eu sob a frase cínica que recebeu Anne Frank, Maximiliano Maria Kolbe e Edith Stein no caminho da imortalidade. Lá vi cobertores tecidos com cabelos, pilhas de roupas, de malas e a mais assombrosa peça: uma pantalha feita de pele humana.  Em cada passo, uma pseudo dispneia me sufocava como se pudesse colocar dentro de mim uma centelha da dor de milhões. Mas, foi na visão de uma vitrine que desmoronei. Nela, milhares de sapatinhos empilhados. Colegas europeus me amparavam sem entender o por quê de despejar minha latinidade em pranto. Pois, meu filho nascera um ano antes, um bebê lindo cujo pezinho caberia em centenas de sapatinhos daqueles.

Dentre as milhões de vítimas da Shoá, mais de um milhão foram exterminadas em Auschwitz-Birkenau. Relatos falam de mais de seis mil por dia. É um número tão absurdo que parece imaginário. Mas, não! Algum gênio da mecânica criou fornos que se retroalimentavam com a parca gordura dos corpos e câmaras de gás que podiam exterminar até duas mil pessoas por vez. Essa eficiência administrativa, revelada no julgamento de Eichmann, levou Hanna Arendt a cunhar a expressão “banalidade do mal” e demonstrar uma peculiaridade comum aos regimes totalitários: a habilidade de transformar carnificina em simples procedimento burocrático.

O resvalo ético para o genocídio é a “coisificação” do outro, um déficit de reconhecimento que impede de enxergar a natureza comum e para o qual concorria o tratamento degradante cujo efeito impedia qualquer identificação entre o carrasco e a vítima que, andes da vida, perdia sua condição humana.

Hoje, nos 70 anos da libertação de Auschwitz, comemoro minha vida lembrando da morte superlativa e dos milhões de sapatinhos vazios ainda mundo afora.  Lembro também da mais importante lição: a shoá foi perpetrada por homens comuns e não por monstros. Como ensina Viktor Frankl (sobrevivente de Auschwitz), o ser humano “é o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também o ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios”.

 

 

 


* Advogado e professor universitário