A Páscoa é uma loucura

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Wambert Gomes Di Lorenzo

Mesmo no martírio encontramos um saldo de racionalidade, uma lógica de extremo amor à vida ou de desprezo a ela. Sim, ainda que benigna ou perversa há, até no suplício voluntário, um resto de racionalidade. Mas, a Páscoa é uma loucura, a cruz é demais para minha cabeça contemporânea. Difícil para minha razão especulativa entender o amor de um pai que entrega seu único filho para morrer resignadamente no meu lugar, como um cordeiro. Ao absurdo da Páscoa soma-se um desatino: a revelação de um Deus humilde. Que disparate! Um Deus humilde. Divindade e humildade é uma contradição insolúvel para minha mente. Tem mais! Como conciliar meu relativismo, o deus que construí a minha própria imagem e semelhança, com a idéia de um Deus Vivo e Absoluto.

 À loucura soma-se o escândalo. As cenas da cruz e de um cadáver esmigalhado sepultado às pressas são horrendas. Como aceitar um Deus ter um fim tão trágico, uma derrota tão infame?

 É falando para homens com dramas como os meus que Paulo inicia sua carta aos Coríntios: ”A linguagem da cruz é loucura para o mundo, mas sabedoria para Deus” (I, 1, 18). Ela ensina que o fim era apenas aparente, que Páscoa (pesach) significa “passagem”, que era necessário o Filho de Deus (Deus com Deus) padecer para humilhar, desmoralizar a morte, vencê-la por ela mesma. Graças à Páscoa de Cristo todos nós podemos ter a nossa e assim também rir da morte, fazer pouco caso dela e caçoar como Paulo: “Morte, onde está tua vitória? Morte, onde está teu aguilhão?” (I Cor. 15, 55).

 Celebrações como a Páscoa são espelhos turvos, onde o Ocidente se olha e por vezes não se enxerga mais. Quando parte do mundo celebra a maior de todas as festas cristãs, ouve-se do fundo deste espelho uma voz que lhe convida a olhar seu reflexo e descobrir a si próprio antes que até mesmo essa túrbida imagem do seu eu seja definitivamente embaçada pelo relativismo que, depois de tantas ameaças, vem desferindo-lhe golpes mortais.

 Entretanto, há os que ignoram a loucura e o escândalo e descobrem na cruz a sabedoria que jaz agora no Oriente Médio e na África sob as cinzas da nossa vergonha, mas que ensina o amor verdadeiro, do qual resultam a tolerância, o perdão e a reconciliação.

 Aquele que fez a passagem, abrindo o caminho para nós, ensinou que a fé, a esperança e o amor são as três vias que levam à felicidade. São as três virtudes que conduzem a nossa passagem, àquele momento de travessia da vida efêmera para a absoluta, ela se dará sobre a ponte da cruz, daquele maldito mas louvável madeiro, que também é o trono sobre o qual o Rei sentou-se para escrever sua nova Lei, do amor extremo e verdadeiro.