Raboni!

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Wambert Di Lorenzo

(Publicado no Domingo de Páscoa de 2000,

em Zero Hora)

        Era uma fresca madrugada, como frescas e secas são as manhãs de Israel. Madalena levantou-se cedo, o sol ainda se espreguiçava enquanto ela já se punha a caminhar. Levava consigo além de um frasco de óleo perfumando, dor imensa, angústia e desesperança, tão antigas e tão atuais. Os sentimentos faziam-na regar de lágrimas o caminho que a conduzia ao sepulcro, onde, por sobre o corpo do seu amado, derramaria o óleo que também levava.
        Tudo acabara. Os mais nobres ideais, jamais pregados em toda história da humanidade, agora jaziam, com seu autor, sobre e sob a pedra fria da sepultura. O gesto da mulher de Magdala soava como o último aplauso de um último espetáculo definitivamente terminado. E, para seu maior desespero, como se não bastasse as atrocidades que, inocente, sofrera o homem, seu corpo havia sido roubado do sepulcro. A mulher chorava. Chorava incontinente e impotente, com choram os sem-comida, sem-amor, sem-esperança, os sem-Deus e todos os outros “sem”, excluídos que são e esmagados pelas iníquas estruturas de poder e pelo egoísmo humano, também tão antigos e tão novos.
        Chorava ainda, quando alguém que lhe parecia o jardineiro a indagava: “mulher, por que choras? Quem procuras?” Respondendo que supunha ter sido roubado o corpo, foi interrompida com uma suave, doce e terna, porém desapontada exclamação do seu próprio nome: “Maria!” Só então reconheceu a voz do interlocutor. Era Ele! A pedra que cobria o sepulcro rolara e o ressurrecto dele levantando saíra com Suas próprias pernas, dando-nos a lição de que os aguilhões da morte não mais teriam poder sobre o homem. Vencera a morte pela morte, para nos fazer participar de Sua abundante vida. Madalena assistia ao cumprimento de todas as Suas promessas. Via-O com seus próprios olhos.
        Era o primeiro dia da semana, a “primeira-feira” nomeada de domingo (dia do Senhor), onde Jesus, Deus com o Pai, acordava do Seu novo repouso sabático, após ter recriado o homem.
        Estupefata, Maria Madalena dissera apenas uma palavra: “Raboni!” (que no hebraico significa mestre). Ela o reconheceu apenas quando este pronunciou seu nome. Só ele sabia pronunciá-lo com tanta ternura e autoridade.
        O burburinho dos nossos tempos, comumente tapam os ouvidos da alma. Nesta sintonia nefasta, o ressurrecto é Aquele que tem o poder de se fazer perceber pela exclusividade e insistência do seu amor. Ele pronuncia nosso nome caro leitor, e apenas a recitação deste, é suficiente para preencher os mais profundos vazios existenciais.
        A grande verdade, grande diferencial e cerne da fé cristã é celebrado hoje: Jesus ressuscitou! Essa ressurreição não deve ficar apenas no plano da história e da teologia. Essencial é que Ele ressuscite e viva no coração do homem. Não de forma panteísta. A experiência cristã nos traz a possibilidade de um relacionamento pessoal com Deus. Não de alguém para uma “força superior” indefinida. Mas, de uma pessoa para outra pessoa, de um alguém para outro alguém. Só assim, como Maria de Magdala, seduzidos e rendidos poderemos também dizer:
- Raboni!