SEJA FEITA A VOSSA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

 “Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu” é o terceiro pedido do Pai-Nosso. A expressão “vontade de Deus”, às vezes pode ter um peso artificial, pode também assustar, como se fosse um ataque à liberdade, à individualidade, à forma de viver nossa vida. Mas, fazer a vontade de Deus é o oposto do que o senso comum sugere. 

Deus não nos criou para a tristeza, a solidão, a angustia ou para a infelicidade. Não nos desejou desde a eternidade senão com o propósito de sermos felizes e Nele termos a plenitude da nossa existência. Pedir, portanto, que a vontade de Deus se realize é também uma predisposição, uma atitude de disponibilidade, uma escolha e uma aptidão para uma ação consciente e livre rumo à felicidade.

Buscar a vontade de Deus é o caminho para a realização do projeto original da nossa existência do qual muitas vezes nos desviamos por diversos motivos. Fazer a vontade do Pai é a resposta que cada um pode dar para Sua proposta ao nos criar, pois quando Deus criou cada pessoa humana a chamou para viver uma vida única, exclusiva e singular. Ninguém jamais pode viver a vida de outrem. Assim, realizar a vontade do Pai é viver o sonho de perfeição que Ele sonhou para cada um enquanto indivíduo.

Deus jamais pediria algo que nos tornasse infeliz, que desviasse nossa vida da felicidade. É por isso que logo depois da conversa com a triste samaritana (que eu já mencionei no artigo “Santificado seja o Vosso Nome”),  Ele diz aos seus discípulos: “meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (Jo 4, 34).

Jesus afirma que fazer a vontade de Deus é aquilo que sacia, que é como um alimento. Saciedade é um dos pseudônimos da felicidade. Aristóteles definia a felicidade como um estado de “carência de nada” ou seja, uma saciedade de tudo, uma satisfação total, um estado de plenitude que Jesus diz alcançar ao fazer a vontade do Pai.

Não é por outro motivo que no auge da Sua agonia o Doce Rabi da Galileia ora: "Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" (Lc 22, 42). Fazer a vontade do Pai é o caminho para a felicidade nesta vida e a garantia da beatitude, da realização total de cada um na vida eterna pois, como sentenciou,  "nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do pai que está nos céus" (Mt 6, 21).

Para descobrir esta vontade, entretanto, não é necessário nada de extraordinário, mas é na oração feita de coração sincero que se descobre no ordinário, no trivial, no cotidiano, a vontade do Pai e, assim, a verdade sobre nós mesmos, sobre nosso chamado e sobre aquilo que a vida espera de nós.

A vontade de Deus é o caminho perfeito rumo a felicidade perfeita. Por isso vale a pena lembrar dois conselhos de Salomão: "Cabe ao homem formular projetos em seu coração...  Todos os caminhos parecem puros ao homem, mas o Senhor é quem pesa os corações. Confia teus negócios ao Senhor e teus planos terão bom êxito. O coração do homem dispõe o seu caminho, mas é o Senhor quem dirige  seus passos" (Pr 1.2-3.9) e  "Há caminhos que parecem retos ao homem e, contudo, o seu termo é a morte” (Pr 16, 25).

“Assim na terra como no céu” é o complemento do pedido e tem a ver com o pedido anterior “venha à nós o Vosso Reino. Nele pedimos que a terra se conforme ao céu. E no céu, qual a única lei que vigora? O amor! Quando pedimos que a vontade do pai seja feita na terra como é lá no céu, pedimos que o amor impere sobre os homens, que seu reino de amor se derrame sobre a terra mas, antes de tudo, que transborde no coração de cada um.

 

 

 

 

QUERO SER FELIZ: VENHA A NÓS O VOSSO REINO!

Você é feliz? O que tem a pergunta a ver com o segundo pedido do Pai-Nosso “venha a nós o vosso reino”? Que reino é esse e como ele “vem a nós”?

De certa forma, estas eram as dúvidas de Pilatos quando recebeu de Jesus a resposta “Meu reino não é deste mundo... meu reino não é daqui” (Jo 18,36) e que parece contradizer com a que Ele deu aos fariseus: "A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: 'Ei-lo aqui! Ei-lo ali!' Pois Eis que o Reino de Deus está no meio de vós" ( Mt 17, 20-21). Mas, para entrar em tal reino é necessário ter um “coração de criança” e se assim não o tivermos, sentencia o Senhor, "de modo algum" entraremos nele (Cf. Mt 18,3). 

Jesus, Sua força, Sua graça, Seu amor, Sua amizade e toda a plenitude que Ele nos traz é o “Seu reino”. Entrar no Reino de Deus é mergulhar em Cristo e permitir que Ele entre em nós. É receber a descarga infinita e poderosa de amor que Deus, nosso Pai, quer derramar no nosso coração.

Quando pedimos que venha o Reino de Deus, pedimos que o Espírito de Jesus, o mesmo que desceu sobre todos lá no Cenáculo venha sobre nós e preencha nossos vazios.  Que ilumine e revele o sentido de nossa vida, que nos console no momento da dor, nos dê sabedoria para decidir, a luz no momento da escuridão, a força no momento da fraqueza, a fé no momento da dúvida e a esperança para caminhar na trilha da felicidade. 

Tudo isso pedimos consolidando em uma única frase: “Venha à nós o Vosso Reino”, porque esse reino é tudo isso de uma vez só, por que esse reino não é um lugar ou um ambiente, mas uma pessoa: Jesus Cristo, o Rei!

Então, quando pedimos “venha à nós” pedimos ao Pai o Seu Filho. É como se pedíssemos, “Dá-nos teu Filho, ó Pai!”. Esse filho que é a “alegria de todos os corações e a plenitude de todos os desejos” (GS 45). Que é a “alegria dos homens” como cantou Bach, que é o único capaz de realizar plenamente a busca que todo coração humano faz na procura da sua origem e do seu fim, pois é principio e fim de todas as coisas.

Este Rei, ao mergulhar na nossa humanidade nos convida a mergulhar na Sua divindade. Ser divinizado pela Sua presença dentro de nós e em tudo ao nosso redor é o que nos ocorre quando o Reino “vem”. É portanto, a felicidade, pois permitimos que o Espirito Santo habite em nós e nos conduza ao nosso fim, que o sentido de nossa vida se realize a cada distante e não em um futuro abstrato e inatingível. Que Ele transborde em nós a alegria de viver, porque Ele que nos criou é que nos leva a navegar no mar da vida, conforme Sua vontade. É por isso que pedimos logo depois “Seja feita a Vossa Vontade”. Mas esse será o tema da semana que vem.

 

 

SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME

O primeiro pedido do Pai Nosso é para que o nome Dele seja santificado. Mas, para a vida de quem ora, qual o efeito de tal pedido?

Disse no artigo anterior que a palavra “santo” vem do hebraico “kdsh” (kadoshi), que significa “separado”, entretanto, “santificar” aqui não significa uma separação, mas um reconhecimento. Se a revelação de Deus como Pai afirma a Sua imanência, a santificação do Seu nome afirma a Sua transcendência. Como afirma o profeta Isaías, Deus é três vezes Santo, é Senhor do Universo e a terra inteira proclama a sua glória (Is 6,3). No livro do Apocalipse, João narra a visão da corte celestial adorando e proclamando “Tu és digno, nosso Deus, de receber a honra, a glória e a majestade, porque criaste todas as coisas, e por tua  vontade é que existem e foram criadas" (Ap 4, 11).

Santificar o nome de Deus é se curvar diante do fato da Sua Divindade, diante do ato puro de Sua existência e de que é Ele o “princípio e fim de todas as coisas” (1Cor 6,19). É reconhecer Sua onipotência e que Ele é Senhor “do tempo e da eternidade” (Ap 1, 18). 

Sendo a santidade de Deus “o centro inacessível de seu mistério eterno” (CIC 2809), santificar o Seu nome é penetrar em tal mistério passando a viver em Deus, compreendendo Seus desígnios na mesma medida que mergulhamos Nele. Santificar é adorar, prostrar-se diante Dele, reconhecendo-O e confessando-O. 

Santificar o nome do Pai é adorá-lO em “Espirito e em Verdade” como o próprio Jesus ensinou à Samaritana: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4,24). Isto é, transfigurar, fazer da própria vida uma prova da existência de Deus a partir da fé, da esperança e do amor que vivemos. 

Santificamos o nome do Pai com nossas vidas quando ela é testemunho da santidade de Deus. Os adoradores que o Pai deseja são aqueles que participam de Sua intimidade, vivem com a mente e o coração sintonizados Nele e que, com suas atitudes, confirmam que é verdadeira a vida espiritual que se supõe ter.  

Santificar o nome do Pai é livremente permitir que Ele exista em nós e que Seu reino brilhe no nosso coração. É clamar com fé e abertura de espírito “Venha à nós o vosso reino”.  Mas esse pedido será o tema do próximo artigo.

 

 

A GRANDE NOTÍCIA

Dando sequencia à reflexão do artigo anterior, antes de entrar nos “sete pedidos” do Pai-Nosso, quero comentar o que lhe é essencial. Aliás, quero comentar aquilo que é a essência do cristianismo, o que lhe é mais importante. Quero comentar a razão do verbo ter se encarnado, de Deus ter-se feito homem e ter vindo a terra.  Enfim, quero falar daquela “boa notícia”,  da grande notícia, da “boa mensagem”, ευαγγέλιον, que traduzido por “Evangelho” se presta a definir o gênero literário dos quatro mais importantes livros da Bíblia: os Evangelhos de Mateus, Marcos, João e Lucas.

Então, qual seria essa grande notícia descrita nesses quatro livros e que fez um Deus se encarnar para nos transmitir? Que tão boa mensagem é essa que fez com que Ele não se prevalecesse de sua condição divina e assumisse a nossa natureza para propagá-la em meio da humanidade?

Deus é pai! Eis a grande e boa notícia.

Entretanto, é lugar comum chamar a Deus de pai e o que estou chamando aqui de “boa nova”, mais parece um clichê, uma obviedade. Mas, será tão obvio assim? Vejamos o que significa tal notícia.

Conta Mateus em seu Evangelho que no instante em que Jesus morria, o “véu do Santuário se rasgou em duas partes, de cima abaixo" (Mt 27, 51). Para entender a simbologia de tal fato é importante lembrar que o templo de Jerusalém era dividido em dois compartimentos. Um deles, o  Santuário, ou “Santos dos Santos” era o mais restrito, praticamente impenetrável. A palavra “santo” vem da raiz hebraica “kdsh” (se pronuncia Kadoshi), e quer dizer “separado”, assim, podemos dizer que "Santo dos Santos" é um superlativo de separado, algo inacessível. No templo, tal lugar era reservado a Deus, guardado e separado por um véu impenetrável onde apenas o Sumo Sacerdote entrava e apenas uma vez por ano. Era destinado a guardar a Arca da Aliança e, simbolicamente, guardava a glória de Deus a qual homem algum podia contemplar. Um Deus cujo nome é impronunciável e ao qual Moisés cobria o rosto para não ousar contemplá-lO. Pois, bem! Era esse Deus inefável, inatingível, terrível do Antigo Testamento que era representado pelo “Santo dos Santos”.

Na morte de Cristo o véu foi rasgado e o oculto foi revelado. O Deus, diante do qual os homens tremiam, revela sua verdadeira face e Aquele que tem um nome impronunciável revela seu verdadeiro nome: "Aba", Pai. O próprio Pai que acompanhava de perto seu filho na caminhada dolorosa do calvário rasgou o véu para se apresentar. Ele mesmo quis que entendêssemos sua mensagem de amor.

Todo o processo se deu a partir de Jesus, que sendo Filho unigênito, vem se revelar como nosso irmão e, assim, revelar Seu Pai como nosso Pai.

“Esse mesmo Deus que se ocultava, nos deu o Espírito do Seu Filho” (Gl 4,6) e é esse Espírito de Jesus, que nos convence que Deus é nosso Pai, testemunhando em nós que, sendo irmãos de Jesus, pelo mesmo Espírito nos tornamos filhos adotivos de Deus. Assim o amor e a tomada de consciência de que somos filhos supera o temor a Deus. Acrescenta São Paulo que  não recebemos “um espírito de escravos, para recair no temor, mas ... um espírito de filhos adotivos no qual clamamos: Abba! Pai! O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiros" (Cf. Rm 8, 14-17). São Paulo vai mais além e nos afirma que pelo Espírito clamamos não apenas Aba (pai), mas Abba (papai, paizinho)! Deus não é apenas nosso Pai, é nosso papai, nosso paizinho. Podemos nos jogar nos Seus braços sem temor ou receio. Um Pai “nosso”, de todos, dos justos e dos injustos (Cf. Mt 5, 45b), dos maus e dos bons, mas sobretudo daqueles que se deixam amar por ele e que se jogam em seus braços.

Deus é, portanto, um Pai que é “nosso” mas “que está no céu”. Ao contrário do que o termo pode sugerir, o “céu” não é um lugar, mas exatamente a ausência do tempo e do espaço e nos indica, ao mesmo tempo, a transcendência e imanência de Deus. Um Pai que está lá, mas está aqui, dentro do coração. Um Pai Onipotente e Onisciente que, segundo Davi sabe tudo sobre nós, que nos vê quando sentamos ou levantamos, que penetra nossos pensamentos, que observa nosso andar e nosso repouso, que sabe todos os nossos passos e conhece a palavra que vamos dizer antes mesmo que ela chegue em nossa língua; um Pai que nos cerca por trás e pela frente e que estende sobre nós a Sua mão (Cf. Sl 138 1-5).

É mergulhando no profundo de nós mesmos e no íntimo do nosso coração que descobriremos este "céu" no qual está o Pai, o Trono de Deus, como afirmou Jesus (Cf. Mt 5,34). Como ensina São Paulo, nós somos templo de Deus e Ele habita em nós (Cf. 1Rm 6,19). Assim, o “Céu” onde está o Pai é, antes de tudo, o nosso próprio coração. Daí, santificar o Seu nome é a atitude fundamental, o primeiro passo para a plenitude da vida mas, isso será tema para o artigo da semana que vem.

 

 

EIS COMO DEVEIS ORAR

No artigo anterior, falei da oração e da importância dela na vida da pessoa humana e fiquei devendo este artigo acerca da aula que deu o Mestre da Galileia em resposta aos seus discípulos que suplicaram: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1)

Mateus, no seu Evangelho, narra a mesma cena e acrescenta mais algumas lições: “Orar ao Pai em segredo, que em segredo nos recompensará”; “Não ser ‘verborreico’ porque multiplicar as palavras não altera o efeito da oração”; e, “confiar pois nosso Pai sabe o que nos é necessário, antes que nós lho peçamos” (Cf. Mt 5, 6-8).

Assim, logo após o pedido dos discípulos Jesus respondeu, segundo Lucas, “Quando orardes, dizei” (11,2) ou, segundo Mateus, “Eis como deveis rezar” (6, 9): 

“Pai nosso que estais no céu;

santificado seja o vosso nome;

venha a nós o vosso reino;

seja feita a vossa vontade,

assim na terra como no céu;

o pão nosso de cada dia nos dai hoje;

perdoai as nossas ofensas assim como nós

perdoamos aos que nos ofenderam;

e não deixeis cair em tentação, 

mais livrai-nos do mal." (Mt 6, 9-13)

Mais que compor o mais belo poema que possa ser recitado a Deus, Jesus ensina uma oração fundamental na qual encontramos tudo o que precisamos pedir ao Pai. Segundo Santo Agostinho, é impossível encontrar em outras orações da Bíblia algo que não esteja contido no Pai-Nosso (Epístolas, 130, 12, 22).

Nos "sete pedidos" do Pai-Nosso encontramos também uma ordenação, uma hierarquia de prioridades sobre o que devemos tratar com o Pai, como também daquilo que deve ser mais importante para nossa vida, como ensina Santo Tomás de Aquino: "A oração dominical é a mais perfeita das orações... Nela não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda segundo a ordem que nos convém desejá-lo. De modo que essa oração não só nos ensina a pedir, mas ordena todos os nosso afetos" (S. Th., II-II, 83,9).

Assim, o Pai-Nosso é, antes de tudo a oração perfeita, o “Caminho da Oração Pessoal” (subtítulo do livro “Pai-Nosso: Caminho da Oração Pessoal” que publiquei em 2006 pela Editora Raboni de Campinas). Ele é chamado de "oração dominical", ou seja, "oração do Senhor", porque é o Mestre quem a ensina e “não nos deixa uma fórmula a ser repetida maquinalmente" (CIC, 2766), mas um modelo, uma forma, ou uma pauta, do que devemos pedir a Deus e em ordem de importância. Também os Padres da Igreja afirmavam que ele não era apenas uma prece, mas uma forma de orar.

O Pai-Nosso é a oração perfeita. Não há nada que possamos pedir a Deus que já não esteja contido nele. Ensina Tertuliano: "Depois de ter legado esta forma de oração o Senhor acrescentou: 'pedi e vos será dado' (Lc 11,9). Cada qual pode dizer ao céu diversas orações conforme suas necessidades, mas começando sempre pela oração do Senhor, que permanece a oração fundamental" (Da Oração, 10). 

Tertuliano também ensina que "a oração dominical é realmente um resumo de todo o Evangelho" (Da Oração, 1). E neste Evangelho que vamos mergulhar nas próximas semanas refletindo sobre esta importantíssima lição de Jesus, nos “sete pedidos” do Pai-Nosso.