VOCÊ SABE ORAR?

Você sabe orar? Curiosamente, os discípulos de Jesus, até certo momento, não tinham a menor noção de como fazê-lo enquanto os discípulos de João Batista oravam com desenvoltura. Jesus e João, além de primos, eram dois mestres em Israel, cada um com respeitável número de discípulos. Quando João foi decapitado as duas escolas se juntaram e todos passaram a seguir o Doce Rabi da Galileia. Conta o Evangelho de Lucas (11,1) que os discípulos de Jesus perceberam que o próprio Jesus e os discípulos remanescentes de João sabiam orar enquanto eles próprios não.  Daí, como narra Lucas, os discípulos suplicaram: “Senhor, ensina-nos s rezar, como também João ensinou a seus discípulos”.  Logo adiante comento a mais-que-perfeita lição que Jesus deu mas, antes, gostaria de comentar sobre o que é a oração e sua importância. 

Dizer que orar é “falar com Deus” é muito pouco, é quase nada. Uma importante alegoria que Jesus usa para descrever a oração é a da “videira e os ramos” (Jo 15, 1-5). Os ramos recebem da videira a seiva que os mantém vivos e quanto mais a videira cresce, seus ramos se entrelaçam e se tornam uma coisa só. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”, promete o Senhor. Ele deseja ardentemente estar conosco (Lc 22, 15) bate à porta no nosso coração, que é o “lugar da busca e do encontro” (CIC 2710), com mansidão e humildade (Mt 11, 29) na intenção de aliviar nossas dores, o nosso cansaço e tirar das nossas costas tomando sobre si os nossos fardos das lutas pesadas da vida (Mt 11, 28). 

Orar é um ato sobrenatural indispensável à vida natural. Na oração recebemos a seiva da videira e alimentamos o espírito, mas isso tem um impacto decisivo no bem estar emocional da pessoa integral que cada um de nós é. Corpo, alma e espírito (I Ts 5, 23) formam o composto indivisível e indissolúvel da pessoa que nós somos. O corpo não hospeda a alma, nem ambos são anfitriões do espírito. A alma é o motor do corpo e o espírito o movimento que essa alma humana é capaz de realizar para dentro e para fora de si mesma, principalmente para Deus. Na oração a alma dá e recebe, fala e ouve, como em um fluxo e refluxo contínuo da energia mais poderosa que pode existir: o amor.

Assim, a oração é uma atividade tipicamente humana e pressupõe o uso da razão. Orar é, antes de tudo, um ato racional e também, portanto, natural ao ser humano. É uma atividade que traz conforto emocional e moral, ajuda tomar as decisões com sabedoria, alegra o coração e nos faz experimentar a felicidade.

Mas, você sabe orar, como os discípulos de João, ou deseja aprender como os discípulos de Jesus?

A resposta de Jesus é o ensinamento perfeito que nos ensina a oração perfeita. Mas isso será o tema aqui do blog para a semana que vem.

 

 

Que nos mova a esperança

Quando tinha pouco mais de cinco anos, meu filho Antonio me perguntou: Papai, o que é a alma? A pergunta precoce provocou uma improvisada e inábil metafísica para crianças interrompida por seu arremate não menos prematuro: Entendi, papai, a alma é o motor do corpo. De súbito, deduziu que seres vivos têm alma, que vegetais e animais são seres animados e, portanto, têm motor. Mas, o que mais o maravilhou foi o fato da alma humana ser uma alma espiritual. Agora, me acompanhando escrever este texto, seu espírito o leva de volta àquela descoberta.

Deduz errado quem conclui que espiritual e religioso são sinônimos. Espírito vem de uma palavra grega, pneuma, que se traduz por vento e que tem o correspondente no hebraico huah (hálito). O espírito é a porta por onde entra a religião, mas não é um ente religioso. Ele é um atributo da alma, uma capacidade desta se mover para dentro e para fora de si, de se ligar a Deus, se deliciar com o passado, amar alguém que não existe mais, se enternecer com uma simples lembrança, se encantar com a beleza ou, ainda, se alegrar com a expectativa do futuro. Isso nos faz entender porque a esperança não é uma virtude moral, mas espiritual. Um homem sem esperança não é um homem mau, mas pode ser profundamente infeliz. No plano religioso, segundo o cristianismo, é uma virtude teologal junto com a fé e o amor. Segundo São Bento, ofendê-la é cometer o célebre e imperdoável pecado contra o Espírito Santo, daí sua máxima: “desesperar, jamais”.

Sua Majestade, a Simplicidade

Baltazar, Belchior e Gaspar saíram da Pérsia guiados por uma estrela rumo ao ocidente. Nos seus alforjes, as dores e as esperanças tão comuns.

Na alma, a busca de algo grandioso que desse sentido a peregrinação neste mundo. Entretanto, o que encontram no final da jornada? A singela cena do bebê que teve uma estrebaria como maternidade, um cocho como berço, a palha como colchão e o feno como cobertor.

Vieram do leste para adorar o Cristo que teria nascido Rei dos Judeus, e mesmo diante do fato incomum de tal Rei nascer em um presépio não se decepcionaram, mas se prostraram, o adoraram e o presentearam com ouro (em honra da sua majestade), incenso (em honra da sua divindade) e mirra (em honra da morte que ele haveria de experimentar).

Naquele instante decidi ser professor

Certo dia, estava eu no escritório de advocacia no qual estagiava, já ganhando meu pão de cada dia, e um colega, também estagiário, tentava escrever uma petição. Me postei ao seu lado e comecei a repassar para ele tudo que eu sabia. Não era muito, mas era tudo. Não soneguei nada, não guardei cartas da manga, nem escondi “o pulo do gato”. Tudo que eu tinha estava gratuitamente dando ao colega (o qual o senso comum prefere enxergar como concorrente). A petição foi elogiada, eu me senti corresponsável e uma alegria tomou conta de mim.  Ouvi com o coração um chamado da vida e naquele instante decidi ser professor.